Na boa, o Elevado Costa e Silva deve ser a obra arquitetônica mais rústica da história de São Paulo.
Há mais três anos moro na Barra Funda. Minha rua faz esquina com a Avenida General Olimpio da Silveira, ou “a avenida que passa por baixo do minhocão” quando tenho que explicar aos amigos como se chega em casa. Ela e a Rua Amaral Gurgel formam os quase 3,5 kilômetros que foram cobertos pelo vão de concreto.
Apesar de já ter passado por estas avenidas diversas vezes de ônibus a caminho do centro, nunca o Elevado me pareceu tão imponente. Talvez essa coisa de “olhar fotográfico” deva ter culpa nisso, porque desde que passei a caminhar pela região, as vigas paralelas expostas no alto me dão uma hipnotizada. Elas levam os olhos a correr toda a extensão, obrigando a observar os pilares que o sustentam, cada um com um grafitte ou stencil diferente. Alguns servem de apoio para moradores de rua. Isso somado ao barulho dos veículos que circulam por ali, reverberizados pelo concreto que está acima. Poluição sonora e visual, um verdadeiro caos.
Sempre quis fazer fotos do Elevado pela parte de baixo, e saí pra clicar lá essa semana por dois motivos: primeiro por causa do documentário Elevado 3.5 (2006) que passou na tv essa semana me incentivou. Acho que, como paulistano e morador da região, sinto certa obrigação de saber mais sobre onde vivo e esse lugar aqui tem história. O outro motivo é que a prefeitura resolveu tirar as intervenções dos pilares e pintar com tinta anti spray. Ou seja, a única cor que aparecer no vão escuro é cinza. Abaixo algumas das intervenções que serão cobertas.
Andar pela avenida com uma câmera na mão é um pouco tenso porque ela chama muito a atenção. Então me limitei a ficar apenas na Gal. Olimpio, fui só até o metrô Marechal Deodoro, onde vi a concentração de simples moradores de rua misturados com “noias” – estes são a grande preocupação. Na Amaral Gurgel o clima é mais pesado. A presença de craqueiros aumentou por ali depois dos programas de urbanização do centro. A prefeituta lida com eles molhando de vez em quando os colchões que ficam debaixo do viaduto com carros pipa. Pois é…
Mesmo assim ainda quero fazer a mesma saída durante a noite, quando há menos carros e o visual ganha cor amarelada pela iluminação. Mas tem que ir de turma, ou quem amarela sou eu.
Uma vez fiz assistência pra uma amigo fotógrafo chamado Felipe Pagani, que fez retratos de moradores de rua junto aos pilares. Como ajuda de custo, ele ofereceu uma quentinha pra cada um. Alguns disseram que preferiam receber grana, pra pinga mesmo. Veja aqui.




























Na correria do dia-a-dia a gente muitas vezes nem presta atenção nos lugares por onde passamos.